terça-feira, 5 de dezembro de 2017

VIVENDAS

Vivendas à venda no mercado.
Aí vem vindo o futuro morador.
Viver é morar;
Morar, segundo a moral do mercado,
É pagar, pagar até morrer,
Pagar e votar com a mão direita,
Por medo irracional da cor vermelha,
Com a mesma mão que limpa a piscina
E tira as fezes do cachorro de raça do quintal
(Nos dias de folga da empregada, é claro).


(Teresópolis, 10/12/2015.)

A LINDA PASTELEIRA



Xing ling ling ling lan!
Menina da China,
A tua rotina
É o teu afã:
Pastel muito e cana.

Xing ling ling ling len!
Por ti de amor morro:
Carne de cachorro
Como por tão bem
Querer-te na cama.

Xing ling ling ling lin!
Deuses ancestrais
São os que demais
Forjaram-te assim:
Linda que o peito ama.

Xing ling ling ling lon!
Negros cabelinhos;
Puxados olhinhos
Mais se estreitarão
Com a minha gana.

Xing ling ling ling lun!
Como a massa inteira e
Lambo a frigideira
Três vezes mais um.
Teu óleo me chama!


(Teresópolis, 3/12/2015.)

TANATOLOGIA DOS POBRES

Cada suspiro é um lamento.
Enquanto ando nas ruas de meu bairro,
Respiro um odor de lixo, trazido pelo vento,
Que me causa revolta e asco.

Cada suspiro é um arfar de vida,
E para cada arfar há um rugido impiedoso da Morte,
Que não tem capa nem foice, mas, temida,
Usa farda e fuzil contra os de má sorte.

Não satisfeita de estender seu bafo
Aos charcos com lodo e bactérias,
Extermina pobres a pé ou de carro.

Sedento do sangue da carne que dá aos vermes em hospitais,
Vai Tanatos a outros reinos da miséria,
Causa e alvo de vis ações fatais.

(Duque de Caxias, 28/1/2015.)







A UMA FUTURA RAINHA

(À bela, doce, pura, meiga e inocente Gina.)

“A rosa, bela infanta das sete saias
e cuja estirpe não lhe rouba, entanto,
o ar de menina, o recatado encanto
da mais humilde de suas aias,
a rosa, essa presença feminina,
que é toda feita de perfume e alma,
que tanto excita como tanto acalma,
[...]  Rosa, ó fiel promessa de ventura
em flor... rosa paciente, ardente, pura!”

(Mario Quintana.)[1]

“De seres ímpares ansiamos prole
Para que a flor do belo não se extinga [...].”

(William Shakespeare, trad. Ivo Barroso.)[2]

És flor ao redor da qual gira o sol:
Mesmo antes das dezoito primaveras,
Encantado em ti canta o rouxinol,
Que vê a coroa em forma de pétalas.

És o centro: minha atenção orbita
Toda a tua irresistível ternura,
De uma princesa inocência infinita,
Puro sonho, uma fantasia pura.

Em toda igreja mereces o altar,
Vitrine contemplável numa missa
Em que, de joelhos, iria eu rezar

À que me rege, a minha suserana.
Regente desabrochada e florida,
Governas meu coração, soberana.

(Márcio Alessandro de Oliveira.  Santa Lúcia, Imbariê, 3 e 4/12/2017.)




[1] QUINTANA, Mario. Motivo da Rosa. In: ______.  Apontamentos de História Sobrenatural. 3. ed. Porto Alegre: Globo, 1984, p. 49.
[2] SHAKESPEARE, William.  Sonetos.  Trad. Ivo Barroso.  In: ______.  Comédias; sonetos.  São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 465.

A FÚRIA DE GOHAN


Da raça que atravessa estrelas ancestrais é o sangue.
Das células carrega o poder oculto no peito,
Que aflora à flor da pele se a cabeça é quente, um feito
Como o da pura água transtornada em vinho em instantes.

Desgraçado é o que provoca a ira do mestiço,
Que não gosta de lutar, mas que é mais perigoso ou
Letal que o pai, capaz de perdoar: sempre poupou
Os inimigos por amor à luta, seu feitiço.

Comedido é o velocípede Gohan sem o brasão
Que lhe altera o feitio e lhe tira o susto do combate,
Tão do gosto do pai, não do filho, sem a razão

Quando a aniquilante raiva interior a la Aquiles
Em douradas chamas d’alma em dor arde no embate
E faz estremecer os vilões, os vis, e os patifes.

(Duque de Caxias, 29/4/2015.)


KENSHIN


       Nobre é o espadachim que com o sangue
Pavimenta o caminho para a luz
Da nova era, em que a todo instante
O ex-retalhador levará a cruz.

Tornar-se-á o moço um andarilho,
E não lavará a alma manchada:
Carregará eternamente o brilho
De toda vida por ele ceifada.

Será na luta por todo oprimido
Que Himura buscará redenção
Teimando, limando, sempre sofrido.

Suas armas serão bem subversivas:
Invertida lâmina e coração
Partido, o qual Kaoru cativa.


(Duque de Caxias, 29/6/2015.)

BOLSOBURROS

Semestre passado, voltando de van para Teresópolis, ouvi um sujeito dizer que prefere mil vezes votar em Bolsonaro a votar em Jean Wyllys.  Defendeu a preferência com a suposta falta de conhecimento sobre economia demonstrada por Wyllys numa entrevista, ignorância logo associada ao fato de ele supostamente saber apenas defender a causa gay.  Deduz-se que o eleitor (um típico teresopolitano de classe média que cumpre os deveres de "bom cristão") alimenta as seguintes convicções:
1ª: Bolsonaro entende de economia;
2ª: o próprio eleitor que estava na van dá muita importância à economia (entendendo bastante do assunto ou não);
3ª: não são importantes a causa gay e as causas das outras minorias.  
        É óbvio que são falsas as três afirmativas.  Por isso dá vergonha a estupidez do teresopolitano médio; e é por isso também que os mais de quatro mil votos que Bolsonaro recebeu desta cidade deveriam causar profunda vergonha e muita indignação, sentimentos que, assim como os protestos contra Cunha e Temer que poderiam ser feitos pela classe média teresopolitana que "detesta" a corrupção, nunca foram externados com ênfase idêntica àquela que se dá aos motivos por que se condena Wyllys nas conversas mantidas em rodas de amigos, em bares ou calçadas.  Parece que os cidadãos e os "intelectuais" com alguma fama, de um modo geral, não percebem o quão constrangedor é saber que Teresópolis rendeu tantos votos para um fascista.  
Quando o assunto é Bolsonaro, dizem: "Ele, Bolsonaro, diz X, MAS...".  É sempre assim: usam a conjunção adversativa, e o efeito é o de concessão, a qual, na verdade, é indulgência.  Para a estupidez de Bolsonaro fazem concessões, indulgências, mas para a luta de Jean Wyllys não há perdão.
Uma vez que são muito burros os eleitores teresopolitanos de Bolsonaro (e os não teresopolitanos também), não se dão conta de que suas falas em defesa dele sempre denunciam estupidez e ignorância.  São provas materiais de sua filiação à ideologia fascista dele.  Sendo assim, faço duas sugestões: 1ª: deixar a burrice de lado para enxergar que estão do lado fascista da política; 2ª: jogar limpo: racionalizar a preferência por Bolsonaro com a importância da economia ou com qualquer erro de seus opositores não é um disfarce convincente para justificar a preferência pelo fascismo.  É mais fácil assumir que Bolsonaro representa os valores ideológicos com os quais se identifica o eleitor dele.  Isso, é claro, não é fácil nem bonito: se fosse, o eleitor cuja fala escutei na van não teria sentido a necessidade inconsciente de racionalizar sua preferência.


[Márcio Alessandro de Oliveira.  Teresópolis, 4/7/2016.]