quinta-feira, 11 de julho de 2019

A formalidade e a informalidade: a norma culta e a norma culta-padrão: o padrão culto do idioma

Professor: Márcio Alessandro de Oliveira.

Tema: A formalidade e a informalidade.

Título: A formalidade e a informalidade: a norma culta e a norma culta-padrão: o padrão culto do idioma.

Pré-requisitos: 1. ter o português como língua materna (a primeira língua, adquirida na infância); 2. saber os tipos de variação linguística — sobretudo as variações diafásica e diastrática.

Objetivo geral: estabelecer as diferenças entre os níveis de registro de duas formas de manifestação do pensamento completamente diferentes: a fala e a escrita.

Objetivos específicos:

1. conceituar e exemplificar o registro linguístico;

2. dividir os tipos de registro em dois níveis: o formal e o informal;

3. subdividir o nível formal em culto e erudito;

4. subdividir o nível informal em chulo e coloquial;

5. reconhecer as diferenças entre a fala e a escrita;

6. mostrar que o contexto de comunicação e o gênero textual (falado ou escrito) condicionam a adequação e a inadequação do nível de formalidade ou informalidade;

7. mostrar as diferentes maneiras de dizer a mesma coisa;

8.demonstrar os efeitos de sentido de cada nível de registro e de cada escolha de palavra;

9. mostrar que, quando há variação, há avaliação e até preconceito linguístico.

 

INTRODUÇÃO

           

            Que devemos entender por padrão? Existe a unicidade dentro da pluralidade: o fato de nordestinos e gaúchos conseguirem se entender prova essa unicidade. Trata-se da variação linguística em contraste com a uniformidade linguística.

            É interessante notar que são cognatas as palavras pátria, padre, pai e padrão: têm a mesma raiz. O padrão linguístico de um grupo de crianças de cinco anos vai ser diferente do padrão de um grupo de enfermeiras. Tal padrão é o modelo ou a norma. Pessoas mais escolarizadas e mais cultas tendem a seguir um padrão culto real. Este último padrão, por sua vez, é o que mais se aproxima de um padrão ideal, defendido por gramáticos normativistas. Sendo assim, podemos dizer que a norma culta é uma norma real, isto é: um modelo realmente acatado ou seguido por falantes e redatores, enquanto a norma culta-padrão é uma norma ideal ou idealizada: existe mais na ideia do que na realidade. (O estudo da norma padrão enfrenta a questão da nomenclatura ou das terminologias técnico-científicas. É que as expressões norma culta e norma culta-padrão não são uma unanimidade entre os linguistas profissionais; por isso, embora eu faça a distinção que acabei de estabelecer, eu, que sou um reles professor de língua, e não um linguista, prefiro usar a expressão padrão culto do idioma.)

            Temos, portanto, a norma culta e a norma culta-padrão: estamos entre o real e o ideal: existe a tensão entre a tradição gramatical e a ruptura.

            Na tensão entre a tradição e a ruptura, às vezes o padrão culto dos falantes e dos redatores escolarizados e até eruditos (tanto nas zonas urbanas quanto nas rurais) está de acordo com o padrão ideal ou idealizado de Evanildo Bechara e outros gramáticos; às vezes, no entanto, não está, de modo que podemos dizer que o padrão culto real é diferente do padrão culto ideal ou idealizado. Se a realidade fosse diferente da que estou descrevendo, ou a ela fosse oposta, eu estaria escrevendo em Latim.

 

 

 

A norma culta e a norma culta-padrão

 

“Comparando a língua culta com a língua coloquial, é possível constatar que, em certos aspectos, as diferenças entre as duas são bastante evidentes, mas, em outros, os limites não são tão claros, ficando difícil, nesses casos, definir uma ‘fronteira’ entre o que é culto e o que é coloquial.”

 

(Mauro Ferreira, 2007, p. 81.)

 

A norma culta é o modelo de língua verdadeiramente usado por falantes e redatores. Já a norma culta-padrão é idealizada com base em textos literários muito formais. Em resumo: a norma culta é real, ao passo que a norma culta-padrão é ideal (ou seja: existe mais na ideia do que na realidade). Há casos em que o uso real da língua corresponde ao ideal de um padrão culto muito sofisticado, o que não anula as variações histórica, geográfica, sociocultural e de classe social da língua.

Todo texto pode variar em nível de formalidade e em nível de informalidade, ou seja: pode sofrer as variações diastrática e diafásica. A primeira diz respeito às classes sociais e ao nível sociocultural; a segunda, à situação, ao estilo da pessoa que fala ou escreve e ao grau de formalidade ou informalidade do modo como ela se serve do idioma, conforme o esquema a seguir (baseado na divisão feita pelos professores Liana Biar, Rafael Pinna e Bruno Rabin):

 

Registro formal: do culto ao erudito;

Registro informal: do chulo ao coloquial.

 

            Exemplos (retirados do livro de Mauro Ferreira):

 

Língua coloquial:

Língua culta:

Pronúncia descuidada: “num sei”, “tá bão”.

Pronúncia mais cuidadosa: “não sei”, “está bom”.

Ausência de marcas de concordância: “Os menino vai”. bem”, “restou duas moedas”, “como fica as regras?”.

Presença de marcas de concordância: “Os meninos vão”. bem”, “restaram duas moedas”, “como ficam as regras?”.

Uso frequente de gírias.

Ausência de gírias.

 

            Tudo depende do contexto de comunicação e da pessoa a quem se dirige a palavra (falada ou escrita). Em outras palavras: a adequação e a inadequação do nível de registro (ou de estilo) dependem da situação.

Observação: A língua falada é muito diferente da língua escrita, pois escrever nunca é o mesmo que falar. Existe, portanto, uma diferença entre a relação falante-ouvinte e a relação escritor-leitor. Infelizmente, há quem pense que a língua falada é informal. Na verdade, pode ser formal ou muito formal. Alguns falantes chegam a ser pedantes, prolixos e pernósticos. Assim são alguns palestrantes. Por outro lado, é possível ser culto sem prejudicar a clareza do que é dito de viva voz.

Outra questão é a da uniformidade de tratamento, que envolve não só os pronomes de tratamento, tais como senhor, senhora e Vossa Excelência, mas também envolve o uso dos pronomes tu e você. Ninguém diz “Você vieste!”, mas sim “Você veio!”.

Numa das próximas aulas, abordaremos os conceitos de gramática, que, de certa forma, já estão nesta aula. Os principais gramáticos do Brasil são Evanildo Bechara, Celso Cunha e Lindley Cintra. Rocha Lima, Ataliba Castilho e Vanda Maria Elias são nomes quase tão importantes quanto os outros três. (Pasquale Cipro Neto e Sérgio Nogueira não são gramáticos, nem linguistas: são, no máximo, professores de língua, bons professores.) Destaco o nome de Evanildo Bechara, autor da Moderna Gramática Portuguesa, e o de Lindley Cintra e Celso Cunha, autores da Nova Gramática do Português Contemporâneo. Ouso dizer que esses dois livros são as mais importantes gramáticas do país.

Em verdade, a gramática nem sempre (ou quase nunca) resolve os problemas de quem quer falar e escrever bem. No caso de quem tem de escrever com frequência, são necessárias algumas ferramentas de trabalho: Segundo o professor Diógenes Magalhães, sobre a mesa do redator (que é quem redige, ou seja: é quem escreve) devem estar os seguintes livros:

um dicionário;

um dicionário de regência verbal;

um dicionário de regência nominal;

alguns tira-dúvidas (os quais, infelizmente, não estão necessariamente em dia com o conhecimento científico da Linguística, divulgado pelos linguistas profissionais);

uma boa gramática;

um manual de estilo ou de Redação.

Acrescente-se à lista acima o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, disponível na internet. É mantido pela Academia Brasileira de Letras. Dependendo do que estiver escrevendo, o redator também precisará de um modelo do gênero textual em que se enquadrará seu trabalho. (A respeito dos gêneros textuais e das tipologias eu darei informações noutra aula.) Se eu, por exemplo, tiver de redigir um ofício, e não houver um modelo nos manuais de estilo guardados em minha biblioteca particular, terei de procurar um modelo em outras fontes. Isso vale para trabalhos acadêmicos, razão pela qual é necessário ter à mão um manual de metodologia científica e referências bibliográficas sobre o tema de pesquisa, como as que estão no Google Acadêmico e no Scielo. No caso dos acadêmicos, serão necessárias algumas NBRs (Normas Brasileiras), que são feitas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Como listar os livros que consultei na minha pesquisa para a elaboração de um trabalho acadêmico? A NBR 6.023 é que determina o modo como o autor do trabalho vai fazer as referências. Em alguns casos, chama-se um revisor ou mesmo um redator-fantasma (conhecido nos E. U. A. como ghost writer), que é um consertador de originais (isto é: um consertador de textos originais ou de rascunhos). O pernambucano Diógenes Magalhães já fez o trabalho de consertador. Palavras dele (2008, p. 64): “Durante muitos anos, ganhei a vida ‘consertando’ os escritos de sujeitos que eram obrigados a redigir, e nada conheciam da técnica de redigir”. E completa: “direi que vivia de passar para linguagem clara o que me era trazido em sintaxe confusa, em termos abstrusos, em forma de redundâncias ou tautologias. Eu era, portanto, redator-fantasma” (2008, p. 65). Era, pois, um tratador de originais.

(Uma observação: redigir é o mesmo que escrever, mas escrever nem sempre é o mesmo que redigir. Poeta nenhum diz que redigiu um poema: diz que o escreveu. Trata-se, outra vez, da diferença entre a técnica de redigir e a arte de escrever. Em suma: estamos diante da diferença entre o texto literário e o não-literário. Posso redigir um artigo de opinião, uma notícia ou até mesmo o editorial de uma revista, porém não posso “redigir” um poema nem um romance.)

Afirma o supracitado professor que o dicionário é o mais importante dos livros usados pelo redator consciente da importância do seu trabalho. Realmente, o dicionarista é um lexicógrafo. Ora, o léxico é o conjunto de palavras de um idioma, e a lexicografia é a técnica ou a ciência de produção de dicionário.

Agora, deixo com vocês os Textos I, II, III e IV. Explicam melhor alguns pontos desta aula.

 

Texto I

 

Adequação e inadequação linguística

 

Quando uma pessoa se comunica com outra(s), para que esse ato se realize de forma eficiente, é necessário que ela faça a adequação da linguagem.

Há situações em que a relação entre os interlocutores é mais descontraída, mais informal ou pessoal, casos em que fica mais adequado o emprego de uma linguagem informal, mais “solta”. Outras vezes, essa relação é mais impessoal, mais distanciada, o que requer uma linguagem mais formal, mais “cuidada”.

São vários os fatores que, isoladamente ou combinados, levam o falante a adequar sua linguagem às circunstâncias do ato de comunicação. Entre esses fatores destacam-se:

o interlocutor (não se fala do mesmo modo com um adulto e com uma criança);

o assunto (não se fala sobre a morte de uma pessoa da mesma maneira que se fala sobre a derrota do time de futebol);

o ambiente (não se fala do mesmo jeito em um templo religioso e em um churrasco com amigos);

a relação falante-ouvinte (não se fala da mesma maneira com um amigo e com um estranho; ou em uma relação social informal e em uma relação formal).

Em um ato de comunicação, a influência desse e de outros fatores resulta num maior ou menor grau de formalidade ou informalidade na linguagem.

 

(Mauro Ferreira. O universo da linguagem. In: ______. Aprender e praticar gramática. São Paulo: FTD, 2007, p. 82-3.)

 

Texto II

 

SANTOS NOMES EM VÃO

 

Praxedes é gramático. Aristarco também. Com esses nomes não poderiam ser cantores de rock. Os dois trabalham num jornal. Praxedes despacha as questiúnculas à tarde. Aristarco, à noite. Um jamais concordou com uma vírgula sequer do outro, e é lógico que seja assim. Seguem correntes diversas. A gramática tem isso: é democrática. Permitindo mil versões, dá a quem sustenta uma delas o prazer de vencer.

Praxedes é um santo homem. Aristarco também. Assinam listas, compram rifas, ajudam quem precisa. E são educados. A voz dos dois é mansa, quase um sussurro. Mas que ninguém se atreva a discordar de um pronome colocado por Praxedes. Ou de uma crase posta por Aristarco. Se a conversa ameaça escorregar para os verbos defectivos ou para as partículas apassivadoras, melhor escapar enquanto dá. Porque aí cada um deles desanda a bramir como um leão.

Para que os dois não se matem, o chefe pôs cada um num horário. Praxedes, mais liberal (vendilhão, segundo Aristarco), trabalha nos suplementos do jornal, que admitem uma linguagem mais solta. Aristarco, ortodoxo (quadradão, segundo Praxedes), assume as vírgulas dos editoriais e das páginas de política e economia. [...]

Sempre estiveram a um passo do quebra-pau. Hoje, para festa dos ignorantes e dos mutiladores do idioma, parece que finalmente vão dar esse passo. É dia de pagamento e eles se encontram na fila do banco. Um intrigante vem pondo fogo nos dois há já um mês e agora ninguém duvida: nunca saberemos quem é o melhor gramático, mas hoje vamos descobrir quem é o mais eficiente no braço.

Aristarco toma a iniciativa. Avança e despeja:

— Seu patife, biltre, poltrão, pusilânime.

Praxedes responde à altura:

— Seu panaca, almofadinha, calhorda, caguincha.

Aristarco mete o dedo no nariz de Praxedes:

— É a vossa progenitora!

Praxedes toca o dedo no nariz de Aristarco:

— É a sua mãe!

Engalfinham-se, rolam pelo chão, esmurram-se.

Quando o segurança do banco chega para apartar, é tarde, Praxedes e Aristarco

estão desmaiados um sobre o outro, abraçados, como amigos depois de uma bebedeira.

O guarda pergunta à torcida o que aconteceu. Um boy que viu tudo desde o início explica:

— Pra mim, esses cara não é bom de bola. Eles começou a falá em estrangeiro, um estranhô o outro, os dois foram se esquentando, esquentando, e aí aquele ali, ó, que também fala brasileiro, pôs a mãe no meio. Levô uma bolacha e ficô doido: enfiô o braço no focinho do outro. Aí os dois rolô no chão.

Para a sorte do boy, Aristarco e Praxedes continuavam desacordados.

 

(Raul Drewnick, apud Mauro Ferreira. Aprender e praticar gramática. São Paulo: FTD, 2007, p. 85-6.)

 

Texto III

 

Os galicismos, na passagem do século XIX para o XX, e os anglicismos, na virada do terceiro milênio, não têm a força destruidora tão temida pelos puristas e conservadores. A língua portuguesa, em todo esse período, se manteve muito bem, obrigada, falada e escrita por cada vez mais gente, produziu uma literatura reconhecida mundialmente, é propagada também em nível internacional pelo grande prestígio de que goza a música popular brasileira — entre tantas outras provas de sua vitalidade. E a avalanche (ai, um galicismo!) de palavras estrangeiras tem de ser analisada da perspectiva da dependência político-econômica (e consequentemente cultural) do Brasil (e de Portugal) para com o centro hegemônico mundial de poder, que são os Estados Unidos. Não adianta bradar contra a “invasão” de palavras na língua portuguesa sem analisar essa dependência. É querer eliminar os efeitos sem atacar as causas.

E essa enorme bobagem de dizer que “brasileiro não sabe português” e que “só em Portugal se fala bem português”? É uma piada de mau gosto, infelizmente transmitida de geração a geração pelo ensino tradicional da gramática na escola.

O brasileiro sabe português, sim. O que acontece é que nosso português é diferente do português falado em Portugal. Quando dizemos que no Brasil se fala português, usamos esse nome simplesmente por comodidade e por uma razão histórica, justamente a de termos sido uma colônia de Portugal. Do ponto de vista linguístico, porém, a língua falada no Brasil já tem uma gramática — isto é, tem regras de funcionamento — que cada vez mais se diferencia da gramática da língua falada em Portugal. Por isso os linguistas (os cientistas da linguagem) preferem usar o termo português brasileiro, por ser mais preciso e marcar bem essa diferença.

 

(Marcos Bagno. A mitologia do preconceito linguístico. In: ______. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 54. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1999-2011, p. 39-40.)

 

Texto IV

 

A IMPORTÂNCIA DA LINGUÍSTICA EM SALA DE AULA

 

            Em sonhos, a Linguística veio até mim. Acompanhada pela gramática, disse que estou no caminho certo: Eu me comporto não como linguista, mas como professor de língua. Como tal, tenho o dever de estar em dia com os textos de divulgação científica da Linguística como um sacerdote catedrático que faz cultivo do conhecimento, e não como vendedor de aulas de escolinhas e cursinhos de fundo de quintal. Minha deusa também disse que sou como o chão de fábrica, ao passo que os linguistas profissionais são como a gerência. Também disse que a gramática normativa, cujo objetivo principal nunca foi nem nunca será o de facilitar a comunicação, mas sim o de discriminar e oprimir os que não a conhecem, até descreve cientificamente bem o idioma. O problema dela é que impõe um modelo linguístico que ela considera superior. Também disse que posso continuar corrigindo os alunos, desde que eu deixe claro que seus “erros” são, na verdade, desvios gramaticais, desvios que um dia a norma culta-padrão poderá legitimar. Tome-se como exemplo o juiz Moro. Pode e deve ser corrigido. Afinal, ninguém gosta de barbarismos ou silabadas em situações comunicativas formais. É que elas, as situações formais, exigem monitoramento e esmero por parte do falante. Isso vale não apenas para a pronúncia: vale para a sintaxe também. Contudo, não se pode dizer que uma pessoa não sabe falar só porque não segue a norma culta. Quem fala “errado” na verdade fala certo. Do ponto de vista científico, o que o senso comum considera “erro” é apenas desvio da norma culta-padrão, que está sempre sendo atualizada. Basta ver a gramática de Bechara: já está na 38ª edição. Ela já não faz a distinção entre ONDE e AONDE, defendida por puristas. Para a Linguística, erro é dizer “Penduradas varal no camisas vi” no lugar de “Vi camisas penduradas no varal”. Na primeira construção, não há coesão: as palavras não estão conectadas, por isso a frase é agramatical; já na segunda sequência as palavras apresentam coesão. Dizer “As camisa” é desvio ou incorreção, mas não é errado dizer “As camisa”. Dependendo da situação comunicativa e do gênero textual, a gramática normativa não poderá ser seguida à risca em nome do pragmatismo das relações sociais: uma fala muito “correta” pode ser pedante. Baseado na gramática gerativista (que é bem diferente da normativa), posso afirmar que ninguém diz  “O moça” nem “A rapaz”. Isso, sim, seria erro, e quem adquiriu o português na infância não fala nem escreve esses termos. O analfabeto não diz essas coisas. Também não diz “Nós vim” nem “Nós comi”: ele diz “Nós veio” e “Nós comeu”. Isso prova que ele sabe a diferença entre o singular e o plural. O plural dele apenas se desvia da norma culta-padrão. Isso, porém, não quer dizer que ele não saiba falar português. Ele é constituído pela língua e na língua. Dizer o contrário é praticar violência simbólica contra ele (acho que o conceito de violência simbólica é de Pierre Bourdieu). Na verdade, ele sabe falar muito bem. Com a educação escolar, ele poderá se apropriar das normas urbanas de prestígio. Estas, por sua vez, nem sempre estão em consonância com Bechara nem com os postulados dos puristas. É que Bechara e outros mantêm um escrúpulo filológico: postulam regras gramaticais unicamente com base em textos literários, cujo estilo ainda é muito artificial (a depender da época em que foram produzidos). Essa tradição vem da Grécia, e é extremamente conservadora e elitista. Nem os profissionais da palavra seguem à risca a norma culta-padrão, que é idealizada. As evidências comprovam que textos muito monitorados já revelam construções que exigem que a norma culta ideal faça concessões em nome da norma culta real. Muitas pessoas devidamente letradas já falam e escrevem “RestOU duas moedas” e “Como ficA as regras?” no lugar de “RestarAM duas moedas” e “Como ficAM as regras?”. Quando usam a ordem inversa, usam o plural “errado”. Cabe à gramática normativa se atualizar, pois esses “erros” são cometidos por pessoas letradas, e não acho que sejam ignorantes. No caso dos meus alunos, cujas falas eu corrijo e cujos erros de ortografia eu aponto, eu digo que podem falar “Nós veio” e “Nós vai”, mas deixo claro que poderão sofrer preconceito linguístico. “Nós vai” é uma variante estigmatizada, ao passo que “Nós vamos” é a variante de prestígio. A frase sempre é variável. O que deve ser feito, no caso do juiz Sérgio Moro, é a divulgação do fato de que não consegue usar a norma culta, o que é muito ruim para um profissional da palavra que fala em momentos de formalidade.

 

Márcio Alessandro de Oliveira, licenciado em Letras (Português e Literaturas) pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Estudos Literários pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e professor efetivo da rede estadual de ensino do Espírito Santo. Serra, ES, 8/4/2019. Últimas alterações: Guarapari, ES, 21/2/2021.

 

Exercícios (dos quais dois foram tirados do livro de Mauro Ferreira):[1]

 

1. Em cada situação a seguir, indique se a linguagem utilizada está adequada ou inadequada.

 

a) Um advogado, num tribunal de júri, diz: “Tá na cara que a testemunha tá enrolando”.

 ( ) Adequada. ( ) Inadequada.

 

b) Um advogado, num tribunal de júri, diz: “É evidente que a testemunha está faltando com a verdade”.

 

( ) Adequada. ( ) Inadequada.

 

c) Conversando com um amigo a respeito de um julgamento, um advogado afirma: “Tava na cara que a testemunha tava enrolando”.

 

( ) Adequada. ( ) Inadequada.

 

d) Num velório, uma pessoa, ao cumprimentar a viúva, diz: “É extremamente doloroso, para mim, saber que seu marido bateu as botas”.

 

( ) Adequada. ( ) Inadequada.

 

e) Um amigo diz ao outro, que costuma dirigir em alta velocidade: “Cuidado, a qualquer hora, você bate as botas”.

 

( ) Adequada. ( ) Inadequada.

 

2. Numa sala de aula, um aluno diz a um colega: “Poderias fazer a fineza de emprestar-me a tua borracha?”. Essa situação é equivalente a

                                                                                                                

a) comparecer, usando short e chinelos, a uma audiência com um promotor.

 

b) comparecer, usando terno e gravata, a uma audiência com um promotor.

 

c) ir à praia de terno e gravata.

 

d) ir à praia sem camisa, de short e descalço.

 

e) ir a um baile de gala usando camiseta.

 

 

3. Quais são os autores das principais gramáticas do país?

 

a)      Augusto dos Anjos e Rainer Rilke.

 

b)     Mario Quintana, Celso Cunha e Sérgio Nogueira.

 

c)      Evanildo Bechara, Lindley Cintra e Celso Cunha.

 

d)     Machado de Assis e Cecília Meireles.

 

e)      Lygia Fagundes Telles e Evanildo Bechara.

 

 

4. O que é lexicografia?

 

a) É a técnica ou a ciência de produção de dicionário.

b) É arte literária.

c) É a técnica de Redação.

d) É arte de escrever.

e) É a historiografia.

 

CONCLUSÃO

 

            Existem pelo menos dois níveis de registro (ou de estilo, ou de linguagem): o formal e o informal. O primeiro é dividido em culto e erudito; o segundo, em coloquial e chulo. Obviamente é possível manter um meio-termo, de modo que é difícil, em muitos casos, saber a diferença entre os níveis. O que me incomoda é o fato de praticamente todos os materiais didáticos e boa parte dos que avaliam redações do Enem partirem de um falso pressuposto ou de um falso princípio, a saber: o de que a fala é sempre e obrigatoriamente informal. Ora, isso é um despautério! Existem falas formais tanto quanto existem escritos informais! No que diz respeito à escolha de palavras e aos efeitos que tal escolha causa (dos quais o pedantismo é um dos mais conhecidos), precisamos entender que a palavra AÍ, por exemplo, encontra amparo em qualquer situação e em qualquer nível de registro ou de linguagem, e isso vale tanto para a língua falada quanto para a língua escrita. O que não pode haver é a incompatibilidade ou a mistura incompatível de registros, como o uso de gírias e bordões usados por jornalistas que, no mesmo escrito, inserem termos estrambóticos ou termos técnico-científicos.

            Existem outras divisões: linguagem jornalística, linguagem literária, linguagem técnica, linguagem familiar, linguagem infantil. Há uma diferença, por exemplo, entre a expressão fazer xixi e o verbo urinar. Também existem três vocabulários: o ativo, que usamos com muita frequência, o passivo, que não usamos, mas reconhecemos, e o ignoto, que não conhecemos, ou seja: nós o ignoramos. No vocabulário ignoto estão os arcaísmos, os preciosismos e os pedantismos. Tudo isso, é claro, exige estudos que talvez vão além das possibilidades desta aula.

            E o que dizer dos estrangeirismos ou empréstimos? (tais como latinismos, galicismos, anglicismos e niponismos). Um exemplo de niponismo é a palavra karaokê; outro exemplo é a palavra tsunami (que quer dizer maremoto). E ainda restam os idiomatismos (ou idiotismos) e os provérbios (as expressões idiomáticas e os ditados populares).

            Na linguagem chula (ou no registro chulo), encontramos silabadas, solecismos, gírias e palavrões.

            Contudo, há coisas que não se dizem, mesmo que estejam de acordo com o padrão culto do idioma, como ofensas e outras falhas de psicologia que denotam ou demonstram falta de circunspecção ou de modalização do discurso (para usar a expressão pedantesca dos linguistas). Dizer “Vá se catar!”, por exemplo, não é usar palavras de calão, mas é grosseria. (A circunspecção, como vocês sabem, é o controle das emoções.) E isso, é claro, tem que ver com a incompatibilidade de registros, que é o que acontece quando uma pessoa começa um texto com gírias e em algum ponto oferece ao leitor um vocabulário rebuscado, como se tal vocabulário fosse um fim em si mesmo ou se por si só já tivesse um valor inestimável e digno de prestígio.

            Não podemos negar que tudo isso prova a existência da variação linguística — e a avaliação é consequência da variação, pois que, assim como somos julgados em função das roupas que vestimos, somos julgados pelas escolhas que fazemos na hora de falar e no momento em que leem o que por nós foi escrito; e ninguém vai a uma entrevista de emprego com trajes que se usam na praia. Naquele tipo de entrevista, usamos roupas e palavras que não usamos em outras situações.

            Não é por acaso que existe o preconceito linguístico. Quem escolher dizer “Framengo” no lugar de “Flamengo” correrá o risco de ser discriminado, e quem diz “Lamento que seu marido tenha batido as botas” num velório, mesmo que siga o padrão culto do idioma, causa um efeito muito desagradável. O sentido é sempre um efeito, porque é sempre um produto da interação verbal entre dois ou mais interlocutores, isto é: entre duas ou mais pessoas que conversam. Se eu pergunto a um aluno “Você está bem?”, eu gero um efeito; já se um médico faz a mesma pergunta a um paciente durante um exame específico, o efeito da pergunta é outro, ainda que o significado seja, basicamente, o mesmo. (O significado é estático e dicionarizado, enquanto o sentido é um efeito único no tempo e no espaço, no momento da enunciação, que pode ser falada ou escrita.)

            Um exemplo de modalização: Numa loja, um cliente diz: “Eu queria saber o preço da camisa”. O “queria” fica no lugar do “quero”. Modalizar o discurso é, de certa forma, medir as palavras.

            Alguns exemplos demonstram as diferenças entre um registro mais coloquial e outro mais culto. Exemplo: Ontem esteve aqui a mulher que eu não sei o nome. O padrão mais erudito, por ser um modelo muito formal, prefere que a pessoa diga “Ontem esteve aqui a mulher cujo nome eu não sei”.

            Por fim, quero lembrar o que foi dito na aula sobre mitos e lendas, a saber: mito é também uma mentira com valor de verdade, e ultimamente tem circulado o seguinte mito: basta comunicar ou basta que haja compreensão mútua. Trata-se do mito do vale-tudo linguístico. Ora, como já disse o linguista Marcos Bagno, os linguistas profissionais nunca afirmaram isso, e os bons professores de língua (que não são obrigatoriamente linguistas) podem e devem combater tal mito, que é um absurdo.

 

Referências

 

ABRAÇADO, Jussara; AMORIM, Carmelita Minelio da Silva; ROCHA, Lúcia Helena Peyroton da.  Aula 1 – Nossa língua normal: por um ensino de língua portuguesa centrado no uso. In: ______. Linguística IV. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2016.

 

AMORIM, Monika Benttenmüller; GONÇALVES, José Carlos.  Aula 1 – Português: Nossa Língua Materna? In: Português VIII. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2016.

 

BAGNO, Marcos. A mitologia do preconceito linguístico. In: ______. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 54. ed. São Paulo: Edições Loyola, 1999-2011, p. 39-40.

 

______. Gramática de bolso do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2013.

 

______. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

 

BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. In: ______. Estética da Criação Verbal. SP: Martins Fontes, 2010.

 

BIAR, Liana; PINNA, Rafael; RABIN, Bruno. Pré-Vestibular Social: redação (v. 1). 4. ed. revisada. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2014.

 

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

 

CINTRA, Lindley; CUNHA, Celso. Nova Gramática do português contemporâneo.  5. ed., 7ª reimpressão. Rio de Janeiro: Lexicon, 2008.

 

FERREIRA, Mauro. Aprender e praticar gramática. São Paulo: FTD, 2007.

 

MAGALHÃES, Diógenes. Redação com base na Linguística (e não na Gramática).  10. ed. Rio de Janeiro: Edições Coisa Nossa, 2008.

 

RODRIGUES, Gerson. Aula 2: Os gêneros e os modos de organização do discurso. In: ______ et al. Português VI. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2014.

 

SAUSSURE, Ferdinand. Curso de Linguística Geral. Trad. Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. 20. ed. São Paulo: Cultrix, 1995.

 

SANTOS, Ana Lúcia Cardoso dos; GRUMBACH, Gilda Maria. Didática para Licenciatura: Subsídios para a Prática de Ensino (volume 1 e 2). Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2012.

 

TEIXEIRA, Flávia A. R..  Aula 2: Gêneros Textuais. In: ______. Inglês Instrumental. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2015.



[1] Gabarito: Questão 1: a: Inadequada. b: Adequada. c: Adequada. d: Inadequada. e: Adequada. Questão 2: c. Questão 3: c. Questão 4: a.

sábado, 22 de junho de 2019

Impressões sobre o slam poético realizado em Imbariê em 26 de julho de 2018: um breve ensaio de teoria e crítica literárias


              Tive a honra de assistir ao slam poético organizado como prelúdio do FAIM (Festival de Artes de Imbariê), que será realizado em novembro de 2018. Boa música, boas companhias e boa comida no Restaurante Sinta Sabor, na Rua Goiandira, antecederam o slam, em que cada um faz a apresentação em três minutos de um poema seu de qualquer gênero. Sem acompanhamento musical e sem adereços visuais, cada poeta e cada poetisa leram em voz alta uma poesia própria e um júri avaliou os textos com notas que variavam de oito a dez.
            Uma vez que sou estudante de Literatura, não pude deixar de analisar o que escutei. Não pude, é claro, ler os poemas, e ainda não posso, por isso eu consigo apenas registrar minhas impressões e opiniões com base em lembranças.
            Parece que o slam é um tipo de sarau, e não um gênero poético. Se é verdade, então o termo slam poético é redundante, pois, nessa perspectiva, todo slam seria poético. Nele percebi que havia variedades de temas, apesar de ter predominado a poesia que fala de problemas sociais. A poesia periférica é um gênero, como a poesia marginal?  (esta foi praticada por indivíduos de classe média, ao passo que aquela não). Não tenho certeza, mas parece que é.
            Que é gênero literário? Que é literatura? Segundo Terry Eagleton, literatura é qualquer escrita imaginativa altamente valorizada. Por isso não podemos deixar que apenas um grupo que se considera elite detenha o monopólio do ato de valorizar textos artísticos, como as prosas de ficção (contos, romances e novelas) e os textos em versos (poemas e canções). Daí a afirmativa que diz que a poesia não precisa de legitimação acadêmica para ser reconhecida e valorizada. Deus me livre de dizer o contrário! Em verdade, é a academia que precisa de objetos de estudo. Primeiro a Terra gira, como bem me disse um professor, depois alguém diz que ela gira. É a ciência que precisa de um objeto de análise, e não o contrário. E ninguém precisa de análises científicas para apreciar e descrever a Terra. O mesmo vale para a literatura, de modo que os sentidos produzidos quando interagimos com ela não são unívocos, isto é: não são o mesmo: variam de pessoa para pessoa. Numa era em que se afirmam os Estudos Culturais, capazes que são de englobar a Teoria e a Crítica Literárias, as quais são apenas mais uma forma entre tantas de apreciar a literatura, é preciso estabelecer os limites que separam a teoria da crítica. Estas, é claro, não podem ser tirânicas. Ocorre que, embora sejam formas de conhecimento de especialistas, elas precisam ser compartilhadas em diversas esferas sociais tanto quanto certos conhecimentos da medicina. Afinal, que seria das diferentes humanidades neste mundo moderno se o conhecimento dos germes tivesse ficado restrito a apenas alguns médicos e cientistas?
            Eu disse que parece que a poesia periférica é um gênero. Pois bem: falar em gênero é falar em teoria (ou em poética, para usar um termo mais antigo do que a teoria). A teoria é uma explicação que reúne as regras de um gênero a partir da observação de obras particulares. O gênero, como diz o nome, é a generalização, é o geral, que nasce a partir da identificação das semelhanças que obras específicas mantêm entrem si, até mesmo por causa da intertextualidade. Quando as obras particulares são examinadas separadamente e se descobre que, apesar das diferenças, elas empregam basicamente a mesma fórmula, postula-se que elas pertencem a um gênero. Sendo assim, tudo quanto se diz de um gênero é teoria, enquanto tudo que se diz de uma obra particular é crítica (crítica não é necessariamente falar mal). Do particular vai-se ao geral (esse é o trabalho da teoria, da poética), e do geral vai-se ao particular (esse é o trabalho da crítica). Eu, por exemplo, sou humano, então podemos, com base numa generalização acertada, dizer que preciso beber água, mas o modo particular como faço isso pode destoar do modo como fazem outras pessoas.
            Por que fazer crítica? Porque é preciso que se descubra o que há de diferente em obras particulares, pois, dependendo das mudanças praticadas pelos autores, um gênero sofre mutação. Ocorre que, às vezes, uma obra destoa do gênero em que é enquadrada. Um exemplo é o romance O Castelo de Otranto (1764), de Horace Wapole (1717-1797). Continua pertencendo ao gênero romance, mas é um romance gótico. É marco fundador do romance gótico: inaugurou esse gênero de romance, e isso se comprova com base no fato de que foi imitado. A descoberta do que ele tinha de diferente é trabalho que a crítica faz. Outro exemplo é o romance policial. Desde o século XIX, toda narrativa detetivesca emprega a seguinte fórmula: um crime é identificado, mas suas causas são desconhecidas. Um detetive, cuja personalidade é formada por características muito suas, como uma mania ou um passa-tempo, reconstitui os passos do criminoso pelo uso da razão. No desfecho, descobre-se que a hipótese mais improvável é a verdadeira. Não há o elemento sobrenatural nem magia. Contudo, há uma obra particular que emprega essa fórmula, mas insere a magia: a série romanesca Harry Potter (1997-2007), de J. K. Rowling (1965). Outra regra (isto é: outra teoria postulada a partir de evidências, que, por definição, são empíricas) é a de que a narrativa policial se passa na pólis, ou seja: na cidade. Se admitirmos que isso é verdade, Pântano de Sangue (1987), aventura escrita por Pedro Bandeira (1942), destoa dessa regra, pois a maior parte da investigação criminal é realizada no Pantanal, no Mato Grosso do Sul, um ambiente mais natural.
            (Lidar com gêneros literários é um pouco difícil. Já se fala em não-romance. É que o romance é um gênero originalmente burguês, e os valores, que mais são desvalores, da classe burguesa estão em crise, e por isso mesmo já se fala em crise dos gêneros. Contudo, ainda acho válido o uso da noção de gênero literário como ponto de referência. Afinal, todos os seres humanos usam taxonomias, isto é: todos usam classificações. Outra coisa difícil é a própria crítica. Todos e todas têm o direito de ventilar opiniões sobre textos reconhecidos como literários. Acontece que, se a crítica científica quer ser tão fundamental para a sociedade quanto a medicina é para os não médicos, a crítica especializada precisa ser melhor divulgada sem deixar de ser fundamentada e mais cirúrgica do que a crítica impressionista dos jornais, ainda que ambos os tipos de crítica — a acadêmica e a não-acadêmica — possam coexistir.)
            Sim, mas eu falava da poesia periférica. Como posso avaliar textos declamados numa noite de inverno se não conheço as regras do gênero a que pertencem? Falta leitura da minha parte, e justamente por isso podem ser muito falhas as impressões que compartilho a partir de agora.
            A primeira pessoa a declamar foi uma poetisa. O eu lírico se dirigia a alguém distante e estava decidido a não olhar para trás. A segunda das duas poetisas que se apresentaram também usou lindas imagens: falou da lua e do aumento que sofreria sua beleza se ela tivesse flores, que deixariam a noite menos atroz. Com o perdão do sexismo: parece que os sentimentos mais suaves foram externados pelas poetisas, ao passo que os mais violentos foram retratados pelos poetas. É que elas, a menos que eu esteja muito enganado, não abordaram problemas sociais, enquanto eles sim, o que talvez sugira que eles foram mais fiéis a um gênero de poesia de contestação social (a poesia periférica). Não que isso seja tudo: não se reduz o poema ao seu teor. Todos e todas exploraram o ritmo, a rima e outros efeitos sonoros. Em outras palavras: tentaram usar estilo: preocuparam-se não apenas com o que diriam, mas também com o modo como diriam. Um dos poetas usou as palavras topo, queda e crack para dizer que espera a queda de uma forma específica de injustiça da qual não me lembro agora enquanto ele fica no topo do morro. Ele fica no topo (e repete a palavra topo: “topo, topo, topo, topo”) (no topo do morro, onde se usa crack) ao mesmo tempo que espera a queda (“queda, queda, queda, queda”). Que vigor! As repetições formam um paralelismo a partir de opostos: o alto (o topo) e o baixo em potencial da queda. Teria o eu poético dito que ele está num nível ético mais elevado do que o de quem pratica a injustiça, mesmo que esteja economicamente num nível mais baixo (o de quem mora no morro)? (O curioso é que topo tem o mesmo radical de utopia.) Acredito que a expressividade seja reforçada pelo /p/, um som plosivo, e pelo som “crepitante” do encontro consonantal entre /c/ e /r/, presente na palavra crack. 
            Acho que nunca se sabe que efeitos podem ser causados pela interrupção do paralelismo. Quando alguém escreve “Comprei três tipos de fruta: maçã e uva”, esse alguém cria uma expectativa e rompe com ela: o receptor espera três tipos, mas só há referência a dois. Isso pode gerar o estranhamento, que é o que acontece quando o assunto do poema é apresentado como se estivesse sendo visto pela primeira vez. No caso do slam, houve uso de palavrões que, em alguns casos, me deixaram intrigado. Eram usados como forma de depreciação da preocupação formal, ou seja: o poeta xinga por não se importar com a rima ou com algum aspecto formal do texto. Mas em alguns casos eu tive a impressão de que essa proposta não foi muito bem aplicada, já que não era feita em nome da expressividade: parecia que faziam mais por fazer. O uso do palavrão pode ser uma lei do gênero. A questão é saber como essa regra pode ser aplicada, como pode o poeta tirar proveito dela em nome da expressividade.
            Acredito que, como o que já foi dito no FAIM de 2017 pelo seu organizador, a poesia de um jovem da periferia tem uma carga especial ou diferente. No entanto, a escuta permite que eu formule a hipótese de que alguns poetas confirmaram lugares-comuns difundidos pelo discurso midiático. Um eu poético se queixou do Estado, que oprime os pobres. A angústia e a revolta permitem que predominem o protesto e o desabafo, porém, do jeito que ficou, o texto não diz como nem por que o Estado se tornou uma máquina opressora. Estamos numa época em que a coisa pública — a res publica — passa a ser alvo de descrédito, quando é o setor privado que corrompe o Estado. Por outro lado, a poesia se serve de símbolos, de modo que o poeta critica o Estado, e no entanto este é só uma forma aparente que pode encobrir outro sentido: Quando Aristófanes queria criticar os sofistas, satirizava os filósofos por eles serem mais conhecidos pelo público. Hoje, aos olhos do público, o grande antagonista do público é o Estado, muito embora devesse ser o mercado.
Também foi mencionado o playboy, que infelizmente pode ser entendido não como o rico e sedutor filho do burguês, mas sim como um sujeito que, por ter o básico, é identificado erroneamente com a classe dominante, quando na verdade ele não passa de alguém cujos pais usam o cheque especial no fim do mês. Parece que todas as classes pensam que a classe média, a que supostamente pertence o playboy, está mais próxima do burguês, mas na verdade o playboy e a classe média são pobres que se deram bem: têm o básico. Esse erro acontece porque a consciência capta a realidade de forma imediata (e não mediata), e por isso identifica direitos básicos com privilégios. Outro motivo de questionamento é o poema em que o eu poético deseja se vingar de Bolsonaro e Temer. Literariamente, é um desejo válido e catártico; entretanto, a vingança é, no dizer de Antônio Cândido, a quintessência do individualismo, e este é o eixo da moral burguesa. (Não posso censurar a raiva do poeta, pois eu mesmo colei na praça de Imbariê uma frase que diz: “Sob a lua de sangue em escorpião, colocaremos Saturno no mapa astral dos golpistas”. Na condição de imagem poética, a lua de sangue, que, aliás, surgiu no céu na noite seguinte à do slam, remete a desejos violentos; e Saturno é o planeta da ruína e do silêncio.) Longe de mim confundir a raiva do oprimido com a tirania do opressor. Não faço isso. O que faço é apontar um aspecto muito caro aos defensores dos direitos humanos, direitos que dizem respeito a todos e todas. (Infelizmente, é comum que se desloque o sentido de defesa dos direitos humanos para o sentido de defesa de bandidos. Isso é feito de modo imediato e determinista. Uso o advérbio infelizmente porque, numa era em que a apuração dos fatos não tem valor nenhum e a vida do outro não é valorizada, já se aceitou acriticamente a ideia de que bandido bom é bandido morto.) Obviamente isso tudo são apenas impressões: um estudo mais aprofundado pode dizer se estou me enganando. Mas minhas cogitações, devo dizer, têm motivação: existem panos para as mangas: se o parnasianismo errou por ser a literatura-sorriso da sociedade (só falava do que era belo ignorando problemas sociais), também pode ser um erro o extremo oposto: a temática social abordada como se por si só ela fizesse poesia.
            Toda a dor das poesias encantadoras do slam permite que eu me identifique com as vozes que se expressaram ontem. Decididamente as subjetividades do evento e eu estamos do mesmo lado. Mas mesmo assim senti falta de uma afirmação mais explícita da importância da vida. A literatura é para a vida.
            Em nome da vida, ele pode e deve se tornar uma tradição da literatura local — mas sem bairrismo literário. É que uma literatura local precisa de uma tradição, e uma tradição só existe quando a ela se dá início. Literatura é forma de existir e de resistir, e o slam é um modo de dar vez e voz às vozes poéticas de pessoas que já resistem pelo simples fato de viverem aqui. Que ele faça parte da vida comunitária de Imbariê e do restante de Duque de Caxias. Eu adorei!

Márcio Alessandro de Oliveira, licenciado em Letras (Português e Literaturas) pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Estudos Literários pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e professor efetivo da rede estadual de ensino do Espírito Santo. Imbariê, 28 de julho de 2018. Últimas alterações feitas em Serra, ES, em 8 de junho de 2019.